Também conhecido como
Eletroforese de Hemoglobina
Estudo de cadeias globínicas
Nome formal
Hemoglobina, variantes da
Este artigo foi revisto pela última vez em
Este artigo foi modificado pela última vez em
19 de Junho de 2018.

 

O que são?

A hemoglobina, proteína encontrada nas hemácias, é formada pelo heme, uma parte que contém ferro, e por cadeias de aminoácidos chamadas globina. A hemoglobina se liga ao oxigênio nos pulmões e o distribui para a células de todo o corpo.

Os tipos normais de hemoglobina são:

  • Hemoglobina A - Representa 95% a 98% da hemoglobina encontrada em adultos; contém duas cadeias proteicas alfa (α) e duas cadeias proteicas beta (β).
  • Hemoglobina A2 - Cerca de 2% a 3% da hemoglobina total em adultos; tem duas cadeias proteicas alfa (α) e duas cadeias proteicas delta (δ)
  • Hemoglobina F - Até 2% da hemoglobina total em adultos; tem duas cadeias proteicas alfa (α) e duas cadeias proteicas gama (γ). É a principal hemoglobina produzida pelo feto durante a gestação. Sua produção diminui muito após o nascimento

Variantes da hemoglobina ocorrem quando alterações genéticas mudam a sequência de aminoácidos da globina. Essas mutações alteram a estrutura da hemoglobina e podem alterar seu comportamento, velocidade de produção ou estabilidade. Há quatro genes que codificam a cadeia alfa da globina e dois que codificam a cadeia beta. (Para mais informações sobre testes genéticos veja O universo dos testes genéticos.) O distúrbio mais frequente relacionado com as cadeias alfa é a talassemia alfa. Sua gravidade depende do número de genes afetados (para mais informações, veja Talassemia).

As variantes da cadeia beta da hemoglobina são herdadas como um traço autossômico recessivo. Isso significa que a pessoa deve ter dois genes alterados, herdados um do pai e outro da mãe, para apresentar a doença relacionada com a variante da hemoglobina. Se herdar um gene normal e um anormal, é chamada heterozigota para a hemoglobina anormal ou portadora. O gene anormal pode ser transmitido para os filhos, mas não causa problemas de saúde no portador.

Se dois genes anormais forem herdados, a pessoa é chamada homozigota, e apresenta sintomas e complicações associadas à anormalidade. A gravidade da doença depende da mutação específica, e varia para cada indivíduo. Uma cópia do gene anormal é transmitida para todos os filhos.

Quando são herdados dois genes de mutações diferentes, a pessoa é chamada dupla heterozigota, e pode apresentar sintomas característicos de uma ou das duas variantes produzidas. Todos os filhos herdam um dos dois genes.

São conhecidas algumas centenas de variantes da cadeia beta, mas apenas algumas são comuns e têm importância clínica. Essas serão discutidas na próxima página.

Variantes comuns da hemoglobina

  • Hemoglobina S: é a principal hemoglobina em indivíduos com anemia falciforme. Cerca de 8% das pessoas de origem africana nos EUA apresentam a mutação em um ou dois genes, e 0,15% têm anemia falciforme. Quem possui a doença tem dois genes beta anormais (βS) e dois genes alfa normais. A presença da hemoglobina S provoca deformação das hemácias quando são expostas a baixos níveis de oxigênio, assumindo um formato de foice. As hemácias afoiçadas podem bloquear pequenos vasos sanguíneos, causando dor, prejudicando a circulação e diminuindo o tempo de vida das hemácias. Uma cópia isolada do gene βS não causa sintomas, a não ser quando combinada com outra variante da hemoglobina, como a da hemoglobina C (βC).
  • Hemoglobina C: cerca de 2% a 3% da descendência de pessoas da África ocidental são heterozigotas para esta hemoglobina (têm uma cópia do gene βC). Homozigotos, que possuem duas cópias do gene βC, são raros e têm uma doença relativamente branda. Apresentam graus variáveis de anemia hemolítica e aumento pequeno ou moderado do baço.
  • Hemoglobina E: é uma das variantes da cadeia beta da hemoglobina mais comuns no mundo. É muito frequente no sudeste asiático, especialmente Camboja, Laos e Tailândia, e em descendentes de pessoas dessa região. Homozigotos para hemoglobina E (com duas cópias do gene βE) apresentam anemia hemolítica branda, microcitose e aumento discreto do baço. Uma cópia única do gene não causa sintomas, a não ser quando associada a outra mutação, como o traço talassêmico beta.

Variantes menos comuns da hemoglobina
Existem muitas outras variantes. Algumas não causam sinais nem sintomas, enquanto outras afetam a função ou a estabilidade da molécula da hemoglobina. Exemplos dessas outras variantes incluem hemoglobina D, hemoglobina G, hemoglobina J, hemoglobina M e hemoglobina Constant Spring, uma mutação do gene da cadeia alfa da globina que resulta em uma cadeia alfa (α) muito longa e em uma molécula de hemoglobina instável. Outros exemplos de distúrbios genéticos da hemoglobina são:

  • Hemoglobina F: é o principal tipo de hemoglobina produzido pelo feto, sendo mais eficiente para transportar oxigênio em ambientes com pouca quantidade desse gás. A produção dessa hemoglobina diminui no nascimento e atinge os níveis de adultos em cerca de um ano. Pode permanecer elevada em diversos distúrbios hereditários. Os níveis são normais ou aumentados na talassemia beta e, com frequência, elevados em pessoas com anemia falciforme ou com a combinação de anemia falciforme e talassemia beta. Indivíduos com anemia falciforme e aumento da hemoglobina F podem ter uma doença mais branda porque esse tipo de hemoglobina inibe o afoiçamento das hemácias. Os níveis de hemoglobina F também permanecem aumentados na persistência da hemoglobina fetal, distúrbio hereditário assintomático (sem sintomas). Existem diversas mutações diferentes que causam persistência da hemoglobina fetal. A hemoglobina F também pode se apresentar elevada em leucemias e outros distúrbios mieloproliferativos.
  • Hemoglobina H: hemoglobina anormal que ocorre em alguns casos de talassemia alfa. É composta de quatro cadeias beta (β) e ocorre quando há falta de síntese de cadeias alfa (α). Embora as cadeias beta (β) sejam normais, a função do tetrâmero não é normal. A molécula de hemoglobina resultante tem grande afinidade pelo oxigênio, o que diminui a liberação desse gás para as células.
  • Hemoglobina de Bart: ocorre em alguns fetos com alfa talassemia. É formada por quatro cadeias gama (γ). Como tem afinidade muito grande pelo oxigênio, com frequência causa morte fetal ou nos primeiros meses de vida.

Uma pessoa pode herdar dois genes anormais diferentes, um do pai e um da mãe, sendo chamada heterozigota composta. Algumas combinações com significado clínico são citadas abaixo:

Hemoglobinopatia SC. A herança de um gene beta S e/ou gene beta C resulta na hemoglobinopatia SC. Pessoas com essa situação têm anemia hemolítica branda e aumento moderado do baço. Podem apresentar oclusões vasculares como as observadas na anemia falciforme, em geral menos graves.

Hemoglobinopatia SD. Quem herda um gene beta S e um gene beta D pode apresentar oclusões vasculares ocasionais e anemia hemolítica moderada.

E-talassemia Heterozigotos compostos para hemoglobina E e talassemia beta têm anemia de intensidade variável, de branda (ou assintomática) a grave.

S-talassemia. A combinação dos genes beta S e de beta talassemia causa anemia de grau variável, dependendo da mutação talassêmica herdada. A produção de cadeias beta pode estar reduzida (beta+) ou completamente eliminada (beta0). A combinação beta S e beta+ talassemia tende a ser menos grave que a combinação beta S e beta0 talassemia. Os pacientes com beta S beta0 talassemia têm episódios de oclusão vascular mais frequentes e anemia mais grave. Pode ser difícil distinguir a anemia falciforme da S-beta0 talassemia.

Exames laboratoriais


Exames laboratoriais para variantes de hemoglobina incluem avaliação das hemácias, avaliação da hemoglobina dentro das hemácias e análise de mutações ou deleções dos genes relevantes. Cada exame fornece informações sobre as variantes presentes. Os exames para investigar variantes de hemoglobina são também usados para investigar talassemia. Essa pesquisa simultânea é importante porque algumas vezes, por ser uma talassemia, é herdada junto com uma variante da hemoglobina.

Hemograma. Examina as células circulantes do sangue. Entre outras coisas, informa o número de hemácias presentes, a quantidade de hemoglobina dentro delas e uma avaliação de seu tamanho e forma. O volume corpuscular médio (VCM) é uma medida do tamanho das hemácias. Se for baixo pode ser a primeira indicação de talassemia. Se o VCM estiver baixo e for excluída deficiência de ferro, a pessoa pode ser portadora de um traço talassêmico ou ter uma das variantes de hemoglobina que causa microcitose, como a hemoglobina E.

No exame de esfregaço de sangue, o profissional do laboratório examina ao microscópio uma fina camada de células coradas sobre uma lâmina de vidro. Nesse processo podem ser observadas diversas alterações das hemácias:

  • microcitose
  • Hipocromia
  • Variação de tamanho (anisocitose) e de forma (poiquilocitose)
  • Presença de hemácias nucleadas
  • Distribuição anormal da hemoglobina, produzindo células em alvo

Quanto maior é a percentagem de células com aspecto anormal, maior é a probabilidade de existir um distúrbio oculto, com diminuição da capacidade de transporte de oxigênio.

Pesquisas de variantes de hemoglobina. Esses exames identificam os tipos e medem as quantidades relativas das hemoglobinas presentes nas hemácias. A medida das quantidades relativas de hemoglobinas variantes permite o diagnóstico de combinações entre variantes de hemoglobina e talassemia (heterozigotos compostos).

Análise de DNA. Exame usado para investigar deleções e mutações nos genes das cadeias de globina. Podem ser feitos estudos de famílias para identificar portadores e mutações em parentes. O exame do DNA não é realizado como rotina, mas pode ser usado para diagnosticar variantes de hemoglobina e talassemia e para identificar portadores.

É necessária alguma preparação?
Nenhuma preparação é necessária.

Por que são feitos?
Os exames para variantes de hemoglobina são feitos para:

  • Triagem de variantes da hemoglobina comuns em recém-nascidos. Em muitos países, faz parte da rotina de triagem de recém-nascidos. Bebês com variantes como a hemoglobina S podem se beneficiar com diagnóstico e tratamento precoces.
  • Triagem pré-natal também pode ser feita em mãe de alto risco: descendentes de grupos étnicos associados a alta prevalência de variantes de hemoglobina (como as de origem africana) ou com pessoas afetadas na família. A triagem pode ser feita em conjunto com aconselhamento genético antes da gravidez para identificar portadores.
  • Identificação de variantes da hemoglobina em pais assintomáticos de crianças afetadas.
  • Identificação de variantes da hemoglobina em pessoas com anemia, microcitose ou Hipocromia.

Há algo mais que eu devo saber?

Transfusões de sangue podem interferir nos exames para identificar variantes da hemoglobina. Os pacientes devem esperar alguns meses após uma transfusão. Entretanto, os exames podem ser feitos em pacientes com anemia falciforme após uma transfusão, para determinar se foi transfundida hemoglobina normal suficiente para inibir o afoiçamento das hemácias.

Desde que foi introduzida em alguns estados do Brasil e em outros países a pesquisa de variantes da hemoglobina na triagem de recém-nascidos, foram identificadas milhares de crianças portadoras. Isso ocorre devido ao uso de novas tecnologias, e não ao aumento da incidência de mutações. A saúde da criança não é prejudicada pela presença de um único gene, mas as novas informações aumentaram a necessidade de conhecimento sobre as variantes da hemoglobina e sobre sua herança.

Páginas relacionadas

Em outros sites da internet
The Sickle Cell Disease Association of America
Sickle Cell Information Center
National Institutes of Health: What is Sickle Cell Anemia?
The Children's Hospital of Oakland, Northern California Comprehensive Thalassemia Center
University of Rochester Medical Center, Division of Genetics Hemoglobinopathies
National Newborn Screening & Genetics Resource Center, Newborn Screening
Cooley’s Anemia Foundation
National Human Genome Research Institute, Sickle Cell Disease
Thalassemia

Fontes do atrigo

NOTE: Este artigo se baseia em pesquisas que incluíram as fontes citadas e a experiência coletiva de Lab Tests Online Conselho de Revisão Editorial. Este artigo é submetido a revisões periódicas do Conselho Editorial, e pode ser atualizado como resultado dessas revisões. Novas fontes citadas serão adicionadas à lista e distinguidas das fontes originais usadas.

Thomas, Clayton L., Editor (1997). Taber’s Cyclopedic Medical Dictionary. F.A. Davis Company, Philadelphia, PA [18th Edition].

Pagana, Kathleen D. & Pagana, Timothy J. (2001). Mosby’s Diagnostic and Laboratory Test Reference 5th Edition: Mosby, Inc., Saint Louis, MO.

(2001 October 15 ). Anemia in Children. American Family Physician, 64:1379-86 [On-line journal]. Available online at http://www.aafp.org/afp/20011015/1379.html through http://www.aafp.org.

Hemoglobin Evaluation. ARUP’s Guide to Clinical Laboratory Testing [On-line information]. Available online at http://www.aruplab.com/guides/clt/tests/clt_a265.jsp#1150784 through http://www.aruplab.com.

Cutler, C. (2003 August 18). Hemoglobin C disease. MEDLINEplus Health Information Medical Encyclopedia [On-line information]. Available online at http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/000572.htm.

Milone, M. (2003 September 03). Hemoglobin derivatives. MEDLINEplus Health Information Medical Encyclopedia [On-line information]. Available online at http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/003371.htm.

Brose, M. (2003 June 01). Hemoglobin electrophoresis. MEDLINEplus Health Information Medical Encyclopedia [On-line information]. Available online at http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/003639.htm.

Levy, A. (2002 March 15, Updated). Sickle cell anemia. MEDLINEplus Health Information, Medical Encyclopedia [On-line information]. Available online at http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/000527.htm.

Cohen, E., (2003 June 05, Updated). Sickle cell test. MEDLINEplus Health Information, Medical Encyclopedia [On-line information]. Available online at http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/003666.htm.

Brill, J. and Baumgardner, D. (2000 November 15). Normocytic Anemia. American Family Physician [On-line journal]. Available online at http://www.aafp.org/afp/20001115/2255.html through http://www.aafp.org.

Variant Hemoglobins. Northern California Comprehensive Thalassemia Center [On-line information]. Available online at http://www.thalassemia.com/variant_hemo.html through http://www.thalassemia.com.

Wethers, D. (2000 September 1). Sickle Cell Disease in Childhood: Part I. Laboratory Diagnosis, Pathophysiology and Health Maintenance. American Family Physician [On-line journal]. Available online at http://www.aafp.org/afp/20000901/1013.html through http://www.aafp.org.

Hemoglobin C, S-C, and E Diseases. The Merck Manual – Second Home Edition [On-line information]. Available online at http://www.merck.com/pubs/mmanual_home2/sec14/ch172/ch172h.htm through http://www.merck.com.

Sickle Cell Disease. The Merck Manual – 2nd Home Edition [On-line information]. Available online at http://www.merck.com/pubs/mmanual_home2/sec14/ch172/ch172g.htm through http://www.merck.com.

Thalassemias. The Merck Manual – Second Home Edition [On-line information]. Available online at http://www.merck.com/pubs/mmanual_home2/sec14/ch172/ch172i.htm through http://www.merck.com.

Hemoglobinopathies2,3,4. University of Rochester Medical Center, Division of Genetics [On-line information]. Available online at http://www.urmc.rochester.edu/genetics/hemo.htm through http://www.urmc.rochester.edu.

Hemoglobin E without Hemoglobin A. University of Rochester Medical Center, Division of Genetics [On-line information]. Available online at http://www.urmc.rochester.edu/genetics/FactSheets/HbEE.htm through http://www.urmc.rochester.edu.

Hemoglobin C without Hemoglobin A. University of Rochester Medical Center, Division of Genetics [On-line information]. Available online at http://www.urmc.rochester.edu/genetics/FactSheets/HbC.htm through http://www.urmc.rochester.edu.

Issues Regarding Identification of Hemoglobinopathy Carriers by Neonatal Screening. Mountain States Genetic Network, Genetic Drift, Issues in Newborn Screening, Vol. 15: Winter, 1998 [On-line newsletter]. Available online at http://www.mostgene.org/gd/gdvol15e.htm through http://www.mostgene.org.

Pagana, Kathleen D. & Pagana, Timothy J. (© 2007). Mosby’s Diagnostic and Laboratory Test Reference 8th Edition: Mosby, Inc., Saint Louis, MO. Pp. 523-525.

Clarke, W. and Dufour, D. R., Editors (2006). Contemporary Practice in Clinical Chemistry, AACC Press, Washington, DC. Pp. 213-224.

Wu, A. (2006). Tietz Clinical Guide to Laboratory Tests, Fourth Edition. Saunders Elsevier, St. Louis, Missouri. Pp. 518-520.

Nanda, R. (2007 April 27, Updated). Hemoglobin electrophoresis. MedlinePlus Medical Encyclopedia [On-line information]. Available online at http://www.nlm.nih.gov/medlineplus/ency/article/003639.htm. Accessed on 9/09/07.

Giannetta, T. et. al. (2007 April 17). Oh, No! The Newborn Screen is Positive! Medscape from J Pediatr Health Care 2007;21(1): 51-52, 69-71. [On-line journal article]. Available online at http://www.medscape.com/viewarticle/554329 through http://www.medscape.com. Accessed on 9/09/07.

(2006 August 03, Reviewed). Interpretation of Newborn Hemoglobin Screening Results. Michigan Department of Community Health [On-line information]. PDF available for download at http://www.michigan.gov/documents/finalinterpretation_71834_7.pdf through http://www.michigan.gov. Accessed on 9/09/07.