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Nome formal: Doença Celíaca (pesquisa de autoanticorpos)
Também conhecido como
Amostra:
Sangue.
É necessária alguma preparação?
Siga as instruções do seu médico. Para o diagnóstico, o indivíduo deve continuar a comer alimentos que contêm glúten por um período de tempo antes de realizar o teste, por pelo menos 6 semanas antes da coleta. Para monitorar um paciente que já tem o diagnóstico não é necessário nenhum preparo. A retirada antecipada do glúten da dieta pode falsear os resultados, tornando os anticorpos negativos caso a doença esteja presente.
Por que fazer este exame?
Para auxiliar no diagnóstico da doença celíaca, avaliar a necessidade de biópsia intestinal e monitorar a adesão à dieta sem glúten em pacientes já diagnosticados.
O que está sendo pesquisado?
A doença celíaca é uma condição autoimune crônica em que a ingestão de glúten (proteína presente no trigo, centeio e cevada) desencadeia uma resposta imunológica que lesa o revestimento do intestino delgado. O diagnóstico é feito por um conjunto de testes laboratoriais desenvolvidos para detectar essa doença1.
Uma combinação de fatores genéticos, ambientais e imunológicos definem a patogênese da doença. Indivíduos geneticamente predispostos – especialmente portadores dos haplótipos HLA-DQ2 e HLA-DQ8 – a gliadina (uma fração do glúten) é modificada pela enzima transglutaminase tecidual (tTG-2) no intestino, tornando-se altamente imunogênica. Desse modo, células dendríticas apresentam essa gliadina deaminada ao sistema imunológico, o qual ativa os linfócitos T CD4+ que coordenam uma resposta inflamatória que leva à atrofia das vilosidades intestinais1. Como consequência disso, ocorre a redução da área de absorção do intestino, causando má absorção de nutrientes, vitaminas e minerais.
Vale ressaltar que o organismo também produz autoanticorpos específicos que podem ser detectados no sangue. Esses autoanticorpos incluem2:
– Anti-transglutaminase tecidual IgG (anti-tTG IgG): solicitado quando há deficiência de Ig A total, situação que afeta cerca de 2 a 3% dos pacientes com doença celíaca e pode levar a falsos-negativos nos testes baseados em IgA;
– Anticorpos antiendomísio IgA (EMA-IgA): apresenta alta especificidade (próxima a 100%) para doença celíaca. Detecta anticorpos contra o endomísio, camada de tecido conjuntivo que envolve as fibras musculares lisas intestinais. A proteína-alvo real identificada nesse teste é a própria t-TG-2. Por ser de realização técnica mais complexa (imunofluorescência) e mais cara, é usado como complemento ao anti-tTG;
– Anticorpos antigliadina deaminada IgA e IgG (DGP): detectam anticorpos contra peptídeos de gliadina deaminada, isto é, a forma modificada que desencadeia a resposta imune. São superiores aos anticorpos antigliadina convencionais (AGA) e particularmente úteis em crianças menores de 2 anos, uma vez que o anti-tTG pode ser menos confiável 3;
– Anticorpos antigliadina convencionais (AGA) IgA e IgG: teste de primeira geração com baixa especificidade. Foram substituídos pelo anti-tTG IgA e pelo DGP na prática atual;
– Anticorpos antirreticulina IgA (ARA): pouco sensíveis e específicos, raramente são utilizados atualmente.
A IgA é o anticorpo de maior relevância clínica porque é a principal imunoglobulina produzida pelo sistema intestinal. Apesar disso, a correta interpretação dos resultados considera a dosagem da IgA total em conjunto, principalmente quando o anti-tTG IgA for negativo em pacientes com elevada suspeita clínica 2.
Biomarcadores emergentes, como os linfogramas intestinais e sanguíneos (análise do perfil linfocitário no intestino delgado e no sangue periférico), têm sido investigados como possíveis ferramentas diagnósticas complementares, com potencial utilidade nos casos de doença celíaca soronegativa e na avaliação refratária 4.
Quando você apresenta sintomas sugestivos de doença celíaca, tais como diarreia crônica, dor abdominal, anemia, fadiga e perda de peso. Quando um lactente é cronicamente irritável ou não se desenvolve normalmente. Quando um membro de uma família tem doença celíaca. Para monitorar o tratamento da doença celíaca.
Os exames sorológicos para doença celíaca são utilizados principalmente nas seguintes situações:
Triagem e diagnóstico
O anti-tTG IgA e a dosagem de IgA total é a estratégia de primeira linha para o diagnóstico em adultos e crianças maiores de 2 anos. Já em lactentes, o painel sorológico deve incluir o DGP IgG3. Resultados positivos ou indeterminados na sorologia são, em geral, seguidos de biópsia do intestino delgado por endoscopia (padrão-ouro) para confirmação diagnóstica, uma vez que identificará a atrofia das vilosidades intestinais (classificação de Marsh-Oberhuber)2.
Diretrizes europeias (ESPGHAN 2020) passaram a admitir o diagnóstico sem biópsia em criança com anti-tTG IgA acima de 10 vezes o limite superior da normalidade, EMA-IgA positivo em segunda amostra e HLA-DQ2/DQ8 positivo. Essa abordagem ainda não é universalmente adotada e deve ser conversada com seu médico 3.
Avaliação de condições associadas e grupos de risco
A triagem sorológica é recomendada em indivíduos assintomáticos pertencentes a grupos de risco aumentado para doença celíaca, pois estudos mostram que até 10% dos familiares de primeiro grau de pessoas com a doença podem desenvolvê-la, muitas vezes de forma silenciosa⁵. Os grupos que se beneficiam da triagem incluem⁵:
Monitoramento do tratamento
Após o diagnóstico e o início da dieta sem glúten, os exames sorológicos são realizados periodicamente para verificar se os títulos de anticorpos estão caindo, o que indica adesão à dieta e recuperação da mucosa intestinal. Os anticorpos em geral se negativam em 6 a 12 meses após a exclusão rigorosa do glúten. Títulos persistentemente elevados sugerem exposição continuada ao glúten, voluntária ou involuntária (contaminação cruzada)2,6.
Avaliação complementar da gravidade e do estado nutricional
Na suspeita ou confirmação de doença celíaca, exames complementares são importantes para avaliar o grau de comprometimento nutricional e o envolvimento de outros órgãos:
– Hemograma completo (para avaliação de anemia, frequentemente ferropriva ou por deficiência de folato/B12);
– Ferritina, ferro sérico e capacidade de ligação do ferro;
– Vitamina B12, ácido fólico;
– Vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K);
– Cálcio, fósforo e fosfatase alcalina (risco de osteoporose);
– Albumina e proteínas totais (estado nutricional);
– Painel metabólico (função renal e hepática, eletrólitos);
– Densitometria óssea (em adultos e em crianças com doença de longa data).
Nas seguintes situações:
Sintomas gastrointestinais
A doença celíaca pode apresentar amplo espectro de manifestações gastrointestinais. A forma clássica caracteriza-se por diarreia crônica, distensão e dor abdominal, esteatorreia, flatulência, náuseas e vômitos. Entretanto, a apresentação atípica é cada vez mais reconhecida — muitos pacientes apresentam apenas constipação, refluxo gastroesofágico, dor abdominal recorrente ou síndrome do intestino irritável, sem diarreia7.
Manifestações extraintestinais
A doença celíaca é multissistêmica. Manifestações extraintestinais incluem anemia ferropriva refratária ao tratamento oral, osteoporose ou osteopenia em adultos jovens, hipoplasia do esmalte dentário, infertilidade ou abortos de repetição, neuropatia periférica, ataxia, elevação de enzimas hepáticas sem causa aparente, aftas orais recorrentes, dermatite herpetiforme e fadiga crônica⁵·⁷.
Crianças
Em crianças, além dos sintomas gastrointestinais, os testes são indicados quando há déficit de crescimento, baixa estatura sem causa esclarecida, puberdade atrasada, retardo do desenvolvimento neuropsicomotor, anemia e irritabilidade persistente. Crianças menores de 2 anos com suspeita clínica merecem investigação mais ampla do painel sorológico, incluindo DGP IgG³.
Rastreamento em grupos de risco
Como descrito na seção anterior, grupos com condições associadas à doença celíaca devem ser submetidos à triagem mesmo na ausência de sintomas. A triagem em familiares de primeiro grau e em grupos de risco é custo-efetiva e permite identificar casos silenciosos, prevenindo complicações a longo prazo⁵.
Os resultados devem ser interpretados em conjunto com o quadro clínico, os dados da dieta (consumo de glúten) e, quando indicado, os achados da biópsia intestinal. Um único exame positivo ou negativo raramente define o diagnóstico isoladamente.
| ANTI-tTG IgA | IgA TOTAL | ANTI-tTG IgG | DGP IgA/IgG | INTERPRETAÇÃO PROVÁVEL |
| + | Normal | — | — | Doença celíaca provável (confirmar com biópsia) |
| — | Normal | — | — | Resultado não sugestivo de doença celíaca ativa |
| — | Baixo (deficiência de IgA) | + | + | Possível doença celíaca com falso-negativo do anti-tTG IgA por deficiência de IgA |
| Elevado (>10x LSN) | Normal | — | — | Doença celíaca com alta probabilidade (em crianças, pode dispensar biópsia conforme critérios ESPGHAN) |
| + ou indeterminado | Normal | — | — | Resultado indeterminado; biópsia ou segunda amostra indicada |
LSN = Limite Superior da Normalidade. + = Positivo/Reagente. — = Negativo/Não reagente. Resultados positivos ou indeterminados devem ser confirmados com biópsia de intestino delgado (pelo menos 4 a 6 fragmentos do duodeno proximal durante endoscopia digestiva alta). A classificação histológica de Marsh-Oberhuber avalia o grau de atrofia das vilosidades intestinais e a presença de linfócitos intraepiteliais, definindo a extensão do dano².
Se o paciente já havia retirado o glúten da dieta antes da realização dos exames, os anticorpos podem estar negativos apesar de haver doença celíaca subjacente. Nesses casos, pode ser necessário um “teste do glúten” — reintrodução controlada do glúten por 6 a 8 semanas antes de nova coleta —, sempre sob orientação médica2,6. No monitoramento de pacientes em dieta sem glúten, a queda progressiva dos títulos de anticorpos indica boa adesão à dieta. Títulos persistentemente elevados após 12 meses de dieta estrita sugerem exposição inadvertida ao glúten (contaminação cruzada) ou, raramente, doença celíaca refratária6.
A doença celíaca é uma doença autoimune, mediada por linfócitos T, com produção de autoanticorpos específicos e dano histológico mensurável no intestino delgado. Requer predisposição genética (HLA-DQ2/DQ8) e exposição ao glúten. As lesões intestinais persistem enquanto houver ingestão de glúten, mesmo em doses mínimas¹. A alergia ao trigo é uma reação de hipersensibilidade imediata mediada por IgE, com início rápido dos sintomas após a ingestão, e pode causar reações sistêmicas graves (anafilaxia). Não leva a dano intestinal crônico da mesma forma que a doença celíaca. A sensibilidade ao glúten não celíaca (SGNC) é uma condição em que os sintomas gastrointestinais e sistêmicos melhoram com a retirada do glúten, sem que haja autoanticorpos positivos nem atrofia vilositária na biópsia. Seus mecanismos fisiopatológicos ainda não são completamente compreendidos e não há marcadores laboratoriais diagnósticos estabelecidos6.
Sim. Estima-se que a doença celíaca afete 1 em cada 100 a 300 pessoas na população geral, mas que a maioria dos casos permaneça sem diagnóstico. Muitos pacientes têm sintomas leves, atípicos ou ausentes — mesmo quando há dano histológico intestinal significativo. Por isso, grupos de risco devem ser rastreados periodicamente mesmo sem sintomas⁵.
Após o diagnóstico, o tratamento é exclusivamente dietético: a dieta sem glúten deve ser mantida de forma rigorosa e indefinida. Os exames sorológicos (anti-tTG IgA) são repetidos em 6 e 12 meses após o início da dieta e, depois, anualmente. Exames para avaliação do estado nutricional, densitometria óssea e acompanhamento com nutricionista especializado também fazem parte do seguimento2,6.
4 Roy G, Fernández-Bañares F, Corzo M, Gómez-Aguililla S, García-Hoz C, Núñez C. Intestinal and blood lymphograms as new diagnostic tests for celiac disease. Front Immunol. 2023;13:1081955. doi: 10.3389/fimmu.2022.1081955.