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Este artigo foi modificado pela última vez em 30 de Novembro de 2019.
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Sobre Hepatite
  • Exames

    Os exames laboratoriais são usados em diversas situações:

    • Exames bioquímicos gerais para detectar e avaliar inflamação e lesão hepática.
    • Exames de triagem usado para detectar hepatites virais, quando há exposição ou risco (uso de drogas ilegais, parceiros sexuais múltiplos) ou em doações de sangue.
    • Exames para diagnosticar a causa da hepatite.
    • Exames para monitorar a evolução da doença e orientar o tratamento.

    Com frequência são pedidos os seguintes exames:

    • Alanine aminotransferase (ALT) - Enzima encontrada principalmente no fígado. É o melhor exame para detectar hepatite.
    • Aspartate aminotransferase (AST) - Enzima produzida no fígado e em outros tecidos, especialmente coração e outros músculos.
    • Fosfatase alcalina - Enzima encontrada em muitos tecidos. Os valores no sangue aumentam em doenças ósseas e quando há bloqueio do fluxo biliar.
    • Gama-glutamil transpeptidase (GGT) - Enzima muito sensível a alterações da função hepática. Ajuda a diferenciar causas de elevação da fosfatase alcalina. Se a GGT estiver aumentada, a elevação é consequência de doença hepática, e não de doença óssea.
    • Bilirrubina - Resíduo da destruição de hemácias velhas. Seu aumento causa icterícia e urina escura.
    • Albumina - Principal proteína plasmática produzida no fígado. A diminuição pode indicar doença hepática.
    • Proteínas totais - Medida da albumina e de todas as outras proteínas plasmáticas.
    • Tempo de protrombina - Medida de um grupo de fatores da coagulação produzidos no fígado. O aumento indica a gravidade da doença hepática.
    • Na biópsia hepática, uma agulha é inserida no fígado para retirar um pedaço de tecido, que é examinado ao microscópio. É o melhor exame para diagnóstico e avaliação da gravidade de doenças hepáticas. Como é invasivo, é usado apenas quando os outros exames não são suficientes.

    Para informações sobre exames laboratoriais usados em tipos específicos de hepatite, siga os links do primeiro quadro do artigo, na página O que é?.

    Procedimentos de imagem, como ultrassonografia e tomografia computadorizada, também são usados para exame do fígado e auxílio no diagnóstico e no tratamento.

  • Hepatites Virais

    Infecções virais são causas comuns de hepatite. Os cinco principais vírus responsáveis pela hepatite são nomeados na ordem de sua descoberta: A, B, C, D e E. Os três primeiros são os mais comuns. Hepatites provocadas pelos vírus B e C com frequência se tornam crônicas.

    A hepatite A é muito contagiosa e é transmitida por água e alimentos contaminados com o vírus. Os sintomas variam de brandos, semelhantes aos de um resfriado, até o quadro clínico completo de hepatite. A doença é sempre aguda. Não existe uma forma crônica de hepatite A. Em 1995, foi desenvolvida uma vacina, que impede a doença e tem diminuído sua incidência. O tratamento envolve apenas medidas de suporte, e quase todos os pacientes se recuperam em cerca de seis meses.

    A hepatite B é transmitida sexualmente, da mãe para o bebê durante o parto (transmissão vertical) ou por sangue ou agulhas contaminadas. É a hepatite viral mais frequente, e é endêmica em algumas regiões do mundo. A Organização Mundial de Saúde calcula que há dois bilhões de pessoas contaminadas no mundo, com 350 milhões de portadores crônicos, que são pessoas que não apresentam sintomas (assintomáticas) e podem  transmitir o vírus. No Brasil, progressos na vacinação de bebês e adultos têm reduzido a incidência de novas infecções.

    A infecção aguda é tratada com medidas de suporte. Mais de 95% dos adultos se recuperam completamente, mas esse número é menor em crianças pequenas (30%) e em recém-nascidos (5%). Os pacientes que não se recuperam tornam-se portadores crônicos, podem apresentar reativações da doença e têm um risco aumentado de desenvolver cirrose hepática e câncer de fígado. Os portadores crônicos são tratados com antivirais e interferon, que reduzem a carga viral mas não eliminam o vírus.

    A hepatite C é transmitida por exposição a sangue contaminado. Os meios mais comuns são o compartilhamento de agulhas e seringas por usuários de drogas injetáveis; exposição ocupacional de profissionais de saúde; da mãe para o bebê durante o parto; atividade sexual que resulta em feridas; e uso comum de barbeadores e escovas de dentes. A infecção com frequência é assintomática, mas de 75% a 85% dos pacientes desenvolvem hepatite crônica. Desses, de 5% a 20% desenvolvem cirrose hepática após muitos anos e têm um risco aumentado de câncer de fígado.

    Ainda não existe uma vacina para hepatite C. O tratamento com antivirais e interferon pode curar a infecção e é recomendado para todos os pacientes com testes de função hepática alterados.

    A hepatite D só ocorre em pessoas já infectadas com hepatite B, o que piora sua evolução. A combinação dos dois vírus aumenta o risco de cirrose e câncer de fígado. A infecção é mais comum no norte da África, no Oriente Próximo e no norte da América do Sul, e ocorre por exposição a sangue ou por agulhas infectadas.

    A hepatite E tem transmissão e evolução semelhantes às da hepatite A. É grave especialmente em gestantes. Ocorre principalmente na Ásia, na África e na América do Sul.

    Exames laboratoriais
    Há uma variedade de exames de pesquisa e medida de anticorpos ou de antígenos usados para diagnosticar e monitorar as hepatites virais. O quadro abaixo resume algumas informações. Para mais detalhes veja as páginas sobre hepatite A, hepatite B e hepatite C .

     

    Resumo: hepatites virais mais comuns

    Vírus Hepatite A Hepatite B Hepatite C
    Transmissão Fecal-oral Sangue, agulhas infectadas, contato sexual Sangue, agulhas infectadas, contato sexual
    Tempo de incubação 15-50 dias 45-160 dias 14-180 dias
    Início Súbito Súbito ou lento, despercebido Em geral lento, despercebido
    Gravidade Branda Ocasionalmente grave Em geral, há sintomas inespecíficos de desenvolvimento lento
    Forma crônica? Não Sim Sim
    Associada a outras doenças? Não Cirrose hepática, câncer de fígado Cirrose hepática, câncer de fígado
    Exames para diagnóstico da infecção aguda HAV-Ab IgM HBsAg, Anti-HBc IgM Anti-HCV, HCV RNA (mesmos resultados na hepatite crônica)
    Exames para diagnóstico da infecção crônica e para monitorar o tratamento N/A HBsAg, HBV DNA, HBeAg, Anti-HBe Anti-HCV (uma vez), HCV RNA ou carga viral, genótipo do HCV (uma vez)
    Exames para detectar infecção anterior HAV-Ab IgG Anti-HBs, Anti-HBc total Anti-HCV
    Existe vacina? Sim Sim Não
    Tratamento comum Nenhum Forma crônica - interferon, entecavir, tenofovir, epivir, adefovir Forma crônica - interferon (em geral, com ribavirina)

    Abreviações usadas

    HAV-Ab = anticorpos anti-hepatite A
    Anti-HBs = anticorpos antiantígeno de superfície da hepatite B
    HBsAg = antígeno de superfície da hepatite B
    HBeAg = antígeno "e" da hepatite B
    Anti-HBe = anticorpos antiantígeno “e” da hepatite B
    Anti-HBc = anticorpos antiantígeno nuclear da hepatite B
    HBV DNA = vírus da hepatite B (pesquisa de material genético do vírus)
    Anti-HCV = anticorpos anti-hepatite C
    HCV RNA = vírus da hepatite C (pesquisa de material genético do vírus)
    HCV carga viral = medida da quantidade de vírus da hepatite C no sangue
    Genótipo do HCV = determina o tipo de hepatite C (um em seis tipos)

    Prevenção
    A incidência de novos casos de hepatites virais está sendo reduzida pelo uso de técnicas seguras de injeção e de práticas sexuais também seguras, importantes para a prevenção das hepatites B e C, e pela disponibilidade de vacinas para hepatites A e B. A triagem de doadores praticamente eliminou infecções por transfusão de sangue. Os programas de vacinação de bebês e crianças diminuem muito a incidência de novos casos de hepatites A e B.

    Tratamento
    Suporte e alívio sintomático são em geral os únicos tratamentos necessários para hepatites agudas, envolvendo repouso, reposição de líquidos e boa nutrição. Nas formas crônicas, o tratamento procura reduzir a lesão hepática progressiva e evitar a transmissão da doença para outras pessoas. Há medicamentos disponíveis para tratamento das hepatites B e C crônicas, mas nem todas as pessoas precisam ser tratadas e os medicamentos podem ter efeitos colaterais sérios. É necessário fazer um acompanhamento cuidadosa para detectar a ocorrência de cirrose hepática ou de câncer de fígado.

  • Hepatites Induzidas por Produtos Químicos e Medicamentos

    O fígado é responsável pelo metabolismo do álcool e de muitos produtos químicos e medicamentos. Essas substâncias são modificadas no fígado para uso ou eliminação pelo corpo. Algumas podem causar lesão hepática quando a pessoa é exposta a elas. A hepatite tóxica pode ocorrer imediatamente ou até dias após a exposição à substância, ou, então, ocorrer lentamente com exposição repetida.

    Paracetamol (ou acetaminofeno) é um medicamento de venda livre muito usado que pode causar hepatite tóxica. Em doses terapêuticas, é útil para alívio da dor e da febre, mas em doses muito altas, especialmente em combinação com álcool, há possibilidade de provocar insuficiência hepática aguda, um distúrbio que apresenta risco de vida.

    O consumo excessivo de álcool é uma causa comum de hepatite tóxica, que pode ser crônica, sem sintomas e reversível com a suspensão do uso de álcool; progressiva, com o uso continuado de bebida alcoólica, que provoca cirrose hepática; ou aguda, após ingestão de grande quantidade de álcool, com sintomas graves e risco de vida.

    Muitos medicamentos podem causar hepatite em algumas pessoas, de modo aparentemente aleatório. Não é possível prever esse efeito. Ele parece estar relacionado com idiossincrasias ou reações alérgicas ao medicamento. Ocorre com anestésicos, antibióticos, anabolizantes, anticonvulsivantes e outros.

    Exames laboratoriais
    Além dos exames gerais usados para avaliar a função hepática em hepatites, também são úteis as dosagens das substâncias envolvidas em hepatites tóxicas, como a dosagem de etanol ou de outras substâncias que podem ter causado a hepatite.

    Tratamento
    Não há tratamento específico para as hepatites tóxicas. O uso da substância causadora deve ser suspenso imediatamente, para permitir a recuperação espontânea do fígado, que pode demorar meses. Alguns casos evoluem para cirrose e insuficiência hepática.

    A intoxicação por paracetamol é contida com o uso de N-acetilcisteína em 24 horas após a ingestão.

  • Hepatites Hereditárias

    Algumas doenças hereditárias podem provocar hepatite aguda ou crônica, como:

    • Hemocromatose - Doença hereditária associada a absorção excessiva e acúmulo de ferro no corpo. O excesso de ferro causa lesão hepática progressiva.
    • Deficiência de alfa-1-antitripsina - Também é uma doença hereditária relativamente comum, e pode resultar em quadros de hepatites agudas ou crônicas. Há também um aumento do risco de cirrose hepática e de câncer de fígado.
    • Na doença de Wilson, há acúmulo de cobre nos tecidos, que provoca alterações neurológicas e lesão hepática progressiva ou aguda.

    Exames laboratoriais
    Uma história familiar de doença hepática gera a suspeita de um distúrbio hereditário. Conheça alguns exames úteis:

    • Exames do ferro, como ferro sérico - A capacidade de ligação do ferro e ferritina ajudam no diagnóstico de hemocromatose.
    • A dosagem de alfa-1-antitripsinal revela a deficiência da enzima.
    • As dosagens de ceruloplasmina e de cobre fazem parte da investigação da doença de Wilson, em que diminui a concentração sanguínea de ceruloplasmina e aumenta a de cobre.
    • Testes genéticos – Alguns desses pesquisam mutações que podem causar certos tipos de hepatite. A pesquisa de mutações do gene HFE, por exemplo, ajuda o diagnóstico de hemocromatose.
    • Biópsia hepática - O exame microscópico de uma amostra de tecido hepático auxilia no diagnóstico.

    Tratamento
    Não há cura para as doenças hereditárias que afetam o fígado. O tratamento depende da doença. Por exemplo, o tratamento da hemocromatose hereditária envolve flebotomias periódicas para retirar ferro do corpo. A doença de Wilson é tratada com dieta pobre em cobre e medicamentos (quelantes) que eliminam cobre do corpo e evitam sua absorção.

  • Fígado Gorduroso Não Alcoólico

    Uma das causas mais comuns de hepatite crônica é o acúmulo excessivo de gordura no fígado. Isso acontece em pessoas que bebem muito álcool, mas pode ocorrer em outras circunstâncias. É normal que o fígado contenha alguma gordura, mas se apresentar mais de 10% de gordura é considerado um fígado gorduroso. Observa-se com maior frequência em pessoas com síndrome metabólica, uma combinação de problemas de saúde que inclui obesidade, especialmente obesidade abdominal, hipertensão arterial, níveis sanguíneos altos de triglicerídeos e baixos de colesterol HDL, resistência à insulina e diabetes do tipo 2.

    Em geral, o fígado gorduroso não causa problemas nem sinais e sintomas. A evolução é lenta, durante anos, com a ingestão de calorias em excesso. Os primeiros sinais de inflamação aparecem quando há um aumento discreto do fígado e resultados alterados de exames de rotina. Em alguns casos, o acúmulo de gordura provoca inflamação grave e fibrose do fígado, progredindo para insuficiência hepática.

    Sinais e sintomas
    Quando estão presentes, são brandos, mas podem ser semelhantes aos de hepatite em geral.

    Exames
    Exames laboratoriais de rotina podem mostrar alterações e ser a primeira indicação de doença. Exames de imagem, como tomografia computadorizada e ressonância magnética permitem avaliar a gordura hepática e outras alterações. A biópsia hepática confirma o diagnóstico.

    Tratamento
    Não há tratamento específico. Algumas providências podem melhorar o estado do fígado:

    • Perda de peso, em obesos
    • Bom controle da glicemia, em diabéticos
    • Controle dos níveis sanguíneos de colesterol e triglicerídeos
    • Abstinência de álcool
    • Alguns estudos sugerem que medicamentos que diminuem a resistência à insulina podem ser úteis
  • Hepatite Autoimune

    Hepatites autoimunes geralmente são formas crônicas que, com frequência, causam lesão hepática progressiva. Entretanto, de 10% a 20% dos casos podem se apresentar como uma hepatite aguda. São mais comuns em mulheres que em homens. Segundo a American Liver Foundation, dos EUA, 70% das pessoas afetadas são mulheres de 15 a 40 anos de idade.

    Há duas formas comuns. A mais frequente é o tipo I, que afeta predominantemente mulheres jovens e pode estar associado a outros distúrbios autoimunes, como diabetes do tipo 1, colite ulcerativa e síndrome de Sjögren. O tipo II é mais raro e afeta principalmente meninas de 2 a 14 anos.

    Os sinais e sintomas são os das hepatites em geral, descritos na seção Sinais e sintomas.

    Exames laboratoriais
    Podem ser pesquisados diversos autoanticorpos para diagnóstico de hepatite autoimune e distúrbios autoimunes associados, como:

    Em geral, pessoas com hepatite autoimmune do tipo I têm ANA, SMA, ou ambos, e pessoas com hepatite do tipo II têm anti-LKM.

    Tratamento
    O tratamento das hepatites autoimunes envolve o uso de medicamentos imunossupressores, como prednisona e azatioprina, que não são eficazes em todos os casos. A doença pode ser controlada, mas não curada. Após três anos de tratamento, 70% dos pacientes entram em remissão durante períodos variáveis, mas são frequentes as recidivas (a doença volta se manifestar).